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  As trapalhadas de um gato

   Era a cantilena de sempre: "Eu ainda mato este gato desgraçado".

   Todos estavam reunidos em volta da mesa. A refeição estava sendo servida. Dona Tutu não se acostumava com a vida na cidade grande. Nascida e criada em uma fazenda, no interior do Paraná, ela estava, no momento, na casa da filha mais velha, Débora. Nos últimos tempos, a saúde da matriarca estava um pouco abalada.

   Octogenária, dona Tutu calmamente olhava o seu genro Paulo que, mais uma vez, ralhava com um gato da vizinhança que teimava em beber o leite posto à mesa. Parecia até arte do Saci-Pererê.

   Paulo exigia que Débora colocasse toalha, pratos, guarnições completas em todas as refeições. Mais parecia uma mesa preparada para uma solenidade. Falava que fora criado desse jeito por sua família. Machista em dose cavalar, nunca consentira que sua esposa trabalhasse fora. Débora era Farmacêutica. Assim que concluira a faculdade, casou-se com Paulo. Ele tinha uma birra tremenda em relação a Débora porque não puderam ter filhos. Arquiteto por formação, ele era uma pessoa amargurada. Contudo, tinha um escritório de renome em São Paulo.

   O casal fizera tratamento para ter filhos. Não obtivera sucesso. Paulo chegara a procurar mais de três médicos. A resposta era sempre a mesma: eles não podiam ter filhos; e a Ciência era limitada. Falava-se até que no estrangeiro cientistas aventavam que em um futuro, não muito distante, casais com este problema poderiam ser beneficiados com as novas conquistas da Ciência. Nos exames que Paulo e Débora se submeteram o diagnóstico negativo para filho era em relação a Paulo; o que mais o infelicitava. Quando eles se casaram, isto há mais de trinta anos, quando os  colegas de trabalho de Paulo perguntavam-no quando o herdeiro nasceria, ele sempre afirmava que estava encomendando a cegonha e que em breve o rebento chegaria. Ele fugia sempre da conversa quando este assunto surgia. A princípio ele falava que  havia um pequeno problema com Débora para se engravidar. Ledo engano. Ele que era doente. Débora podia, sim, gerar um filho. Todos os exames médicos apontavam para este diagnóstico. E Paulo queria mentir para si próprio. Hoje, Paulo e Débora têm a idade de 52 anos.

   A vida de Débora é voltada completamente para o lar. Tem Fátima como cozinheira e amiga. Paulo não aprova, muito, esta amizade. Todavia, Fátima está trabalhando com o casal há vinte e cinco anos. Débora fora criada em cidade do interior. Fora para São Paulo fazer faculdade e lá casou-se.

   Assim que terminaram a refeição, Paulo deixara a mesa e fora para o escritório.

   - Débora, de quem é este gato? - perguntou dona Tutu.

   - Mainha, é de alguém daqui da vizinhança. Ainda não sei de quem é. O gatinho teima em querer passear em nossa mesa. Ele entra aqui na sala, vai na cozinha, fica passeando e faz a festa, ah, ah,ah. No primeiro dia que ele apareceu, ainda não tem um mês, a mesa estava posta e nós estávamos assistindo televisão. Quando chegamos, o meu mingau havia sumido. O prato estava limpo. Perguntei à Fátima se ela tinha visto alguma coisa diferente. Ela me disse que não. Outro dia, ouvi um miado. Era o gato. Procurei, procurei, mas não o achei. Não sei ainda como é. Fátima, também, ainda não o viu. Só sei que ele fica passeando por aqui.- disse Débora.

   - Débora, minha filha, vamos falar com os seus vizinhos. Vamos ver se a gente descobre o dono deste gato. - afirmou dona Tutu.

   - Tá bom, mainha. Amanhã cedo vamos descobrir.- disse Débora.

    Dona Tutu, Débora e Fátima já estavam na quarta casa da vizinhança e não tinham descoberto o dono do gato; quando foram atraídas por um grupo de crianças que estava reunido em torno de um gatinho que saboreava duas sardinhas.

   Experiente, dona Tutu disse: Débora, é este o gato que estamos procurando. 

   - Crianças, quem é o dono deste gato? - perguntou Débora.

   - Tia, este gatinho não tem dono, não. Ele fica zanzando aqui na vizinhança. Dizem que ele foi abandonado aqui no bairro. Seu Lourival, da peixaria, dá sempre restos para ele comer. Ele não tem dono não. - disse uma garotinha que aparentava uns nove anos de idade e morava na vizinhança. A história foi confirmada pelo dono da peixaria.

   Débora comprou alimento para o gatinho e o presenteou a dona Tutu.

   Quando dona Tutu terminou os seus exames médicos voltou para a sua fazenda em companhia de Ivo, o gatinho. 

 

 



Escrito por Marcelo Fonseca às 09h57
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